domingo, 12 de fevereiro de 2017

Helinha, aqui escreve o Amadeu, o menino do Rio. Sem querer me meter a besta nem a chato sem galochas (porque elas já não se usam) e porque, a bem da verdade e sem hipocrisia, esse texto é de autor desconhecido e é sempre mais fácil comprar briga com autor que não se conhece do que com autor que, vamos imaginar, faz academia e conhece artes marciais, eu discordo 100% dessa tese, que exalta o idoso e massacra o velho. Nascido em 1939, no início da Segunda Grande Guerra e ainda estando por aqui, eu sei e assumo perfeitamente que estou velho. Caramba, cacilda, caracoles, tenho 77 anos, tô velho. Isso quer dizer que vivi 77 anos até agora e que estou disposto a viver mais. Fico solidário com um autor americano, não me lembro qual, que disse ser sua intenção viver para sempre. Como esse cara era americano, disse "I intend to live forever. So far so good." Por quanto tempo poderei dizer, "Pretendo viver para sempre. Até agora, tudo bem", eu não sei, ninguém sabe. Mas assumo a carteirinha da velhice numa boa. Prefiro estar e ser velho a estar e ser o tal do idoso. O sufixo -oso não me é simpático: idoso, ansioso, invejoso, teimoso, andrajoso, ardiloso, meticuloso, pavoroso, horroroso, bexigoso, rançoso, tuberculoso... Não concordo com as oposições propostas naquele texto, com carga positiva para o idoso e negativa para o velho. Acho que, como em todas áreas da condição humana, há idosos chatérrimos e há velhos do baralho. "Você é idoso quando sonha... você é velho quando apenas dorme." Não compro essa dicotomia. Como toda a gente, durmo e sonho, às vezes sonhos onde me vejo jovem, outras vezes em que me vejo como estou hoje. "Para o idoso a vida se renova a cada dia que começa... para o velho a vida se acaba a cada noite que termina". No way, José (pronunciado em inglês, rimando com lei). De jeito nenhum. Seja o rótulo qual for, idoso ou velho, cada novo dia é uma ordem para você ficar esperto e o viver com toda a intensidade possível. "Idoso é quem tem o privilégio de viver uma longa vida... velho é quem perdeu a jovialidade." De novo, discordo. Quem perdeu a jovialidade não é velho, é panaca. Conheço muitos jovens que nunca foram apresentados à jovialidade ou então deixaram de a ter e nem ligaram. Quanto ao privilégio de viver uma longa vida, ele não é dado especialmente ao idoso, é dado a todos nós, basta receber um bom DNA, alimentar-se direitinho, beber muita água e muito vinho (tinto, português, do Douro ou do Alentejo), ter um trabalho que te interesse, te sustente e te divirta e ficar esperto para evitar as balas perdidas. O que quero dizer com esta lenga-lenga (afinal continua havendo trema em lenga-lenga) é que assumo com orgulho, talvez até empáfia, a minha carteirinha de velho. Uma palavra que pensada e dita com carinho, pode ser tão doce como um cafuné. Imagina que você ouve seu filho dizer a outra pessoa (sem que você ouça ou saiba), "Meu velho é um cara legal." Ou então ouve teus filhos se referirem aos pais (a mãe deles e você) dizendo isto, "Vamos chamar os velhos para jantar." Legal, né? É carinhoso. Agora imagina trocar a palavra velho nessas frases, pelo tal idoso. Seria isto: "Meu idoso é um cara legal." "Vamos chamar os idosos para jantar." Ridículo, né? Então, vivam os velhos! E as velhas, of course! E agora preciso terminar este texto, preciso ir ao ensaio do bloco Trema na Linguiça, saio na ala dos velhos. Ziriguidum!

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