terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Minha Pátria é a língua portuguesa." (Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, in O Livro do Desassossego)
E porque hoje é feriado, terça-feira de Carnaval e não podemos passar um único dia, útil ou inútil, sem dar uma boa risada ou sem ler um grande poema, aqui vai uma maravilha escrita pelo português José Fontinha, mais conhecido como Eugénio de Andrade (1923-2005). Eugénio, portuense, com acento agudo e não com chapéu.
Urgentemente
É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Fui eu, sim! Mas juro que não faço mais!
A arte perfuma a vida. E por falar em arte e vida, digo de novo ...
Você é quem manda. A tela da sua vida é você quem pinta. Você recebe, ao nascer, todas as ferramentas e todos os recursos de que vai precisar. A vida lhe dá a tela, para você pintar. Todos nós somos pintores, artistas, criadores, alguns mais realistas, outros mais surrealistas, uns mais da Vinci, outros mais Dali. E essa tela é pintada e retocada a cada dia. Quem não tem pincel, pinta com os dedos. O importante é fazer da nossa vida uma bela obra de arte. De que tipo ela vai ser, it´s totally up to you.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

E antes que a chama do dia 24 de fevereiro se apague, pra voltar mais forte ano que vem, venho aqui mais uma vez com poesia. Peço licença à querida Emily Dickinson (1830-1886) para reproduzir esta pequena maravilha,
If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in pain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Unto his nest again,
I shall not live in vain.
E vou de novo, besta que sou, ousar uma versão livre na nossa língua. É em outra música, não menos amada.
Se eu puder tirar, de alguém, o sofrimento,
Eu não terei vivido em vão;
Se eu puder, de uma vida, aliviar o mau momento,
Ou consolar seu coração,
Se eu puder levar de volta ao ninho
De asa quebrada, o pobre passarinho,
Eu não terei vivido em vão.
Conto o jardim pelas flores,
Não pelas folhas no chão.
Conto a vida por amores,
Que embalaram o coração.
Conto a noite por estrelas, esqueço o medo,
Conto a vida por vitórias, não por danos.
E, feliz, conto a todos meu segredo:
Conto a idade por amigos, não por anos.
Aos meus trocentos amigos, obrigado!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Overdose de poesia? Não, né? Poesia nunca é demais, mesmo neste calor. E qual é o tema, agora? Humildade, discrição, low-profile. Quem vai falar, assim, baixinho, discretamente, quase como quem pede licença para entrar na sua cabeça e plantar idéias? Quem será? Num digo, só depois de reproduzir ...
I´m nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there´s a pair of us - don´t tell!�They´d banish you, you know.
How dreary to be somebody!
How public, like a frog,
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!
Emily Dickinson (1830-1886) viveu grande parte de sua vida reclusa, ela praticamente "banished herself", bichinho-do-mato por escolha própria, a sua obra poética foi conhecida e publicada somente quando ela não estava mais por aqui. Nesse poema a artista envolve o leitor em cumplicidade, convida-o a jogar no time do "nós, discretos" contra "eles, os famosos" e exprime a sua vontade de criar beleza, sem esperar ouvir as trombetas da fama.
Vou-me arriscar a traduzir, pedindo desde já desculpas se viajei demais.
Meu nome é ninguém. E o teu?
Teu nome é ninguém, ó meu?
Então somos dois - não espalha!
Seriamos mandados pra Cornualha...
Que saco, ser alguém!
Figura pública, como um sapo,
Coaxar o nome, caprichar bem
Para o fã clube no charco.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Gracie Mello, mandou ... tá mandado. Não gostei desse poema, é muito água com açúcar. Anyway, aqui está a tradução livre de
Convite ao amor
Vem, nas noites estreladas
Ou no luar esbranquiçado;
Vem quando o sol foca seus raios
No amarelo do feno já cortado.
Vem no fim da tarde macia
Vem de noite, vem de dia
Vem, amor e vem sorrindo
Vem, que serás sempre bem-vindo.
Tens de mim toda a ternura
Meu coração e alma pura,
Vem pro meu abraço e meu carinho,
Como o pássaro que só agora chega ao ninho.
Vem quando o mundo inteiro está em dor
E vem também quando ele está em festa
Vem nas noites tristes de outono
Para afastar a solidão e o abandono,
Vem na primavera com a primeira flor
Vem no verão, vem sempre, meu amor,
Vem, amor, e vem sorrindo
Vem que serás sempre bem-vindo.
- Paul Laurence Dunbar
Gracie, não me xinga nem me bate, I´m only the messenger. Não fui que escrevi o original, não fui eu que mandei o namorado vir, trocentas vezes. Essa poeta parece uma flanelinha, só sabe dizer "Vem, vem, vem...", ajudando o motorista a entrar na vaga.
Quando puder, traduz e comenta...
Invitation to Love
Come when the nights are bright with stars
Or come when the moon is mellow;
Come when the sun his golden bars
Drops on the hay-field yellow.
Come in the twilight soft and gray,
Come in the night or come in the day,
Come, O love, whene’er you may,
And you are welcome, welcome.
You are sweet, O Love, dear Love,
You are soft as the nesting dove.
Come to my heart and bring it to rest
As the bird flies home to its welcome nest.
Come when my heart is full of grief
Or when my heart is merry;
Come with the falling of the leaf
Or with the redd’ning cherry.
Come when the year’s first blossom blows,
Come when the summer gleams and glows,
Come with the winter’s drifting snows,
And you are welcome, welcome.
—Paul Laurence Dunbar
“Invitation to Love” – "Majors and Minors" , 1896

E vocês achavam que eu já tinha largado do vosso pé, pisando insistente, com poesia? Enganaram-se redondamente, estão redondamente enganados (royalties para o Professor Israel Jelin, pelo uso da expressão). Porque eu vou atacar de novo, agora com um poema que a revista Harper´s publicou em 1920, inventado pelo genial Robert Frost. Chama-se
Fire and Ice
Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I´ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But If I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
E eu, besta que sou, arrisco uma versão livre, em português, que seria isto, com as devidas desculpas a Frost.
Fogo e Gelo
Dizem que o fim do mundo será em fogo,
Ou então em gelo.
De todas as emoções da vida que estão em jogo,
Estou do lado daqueles que apostam no fogo.
Mas se o fim chegasse por uma segunda vez
Acho que, para fazer toda a diferença
Das emoções humanas e de tudo o que vês,
Muito maior que o ódio é a indiferença
Vazia e fria, talvez.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Vamos a um poema, de Robert Frost: 

Stopping by Woods on a Snowy Evening

Whose woods these are, I think I know.
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.
My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.
He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.
The woods are lovely, dark and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.
- Robert Frost

Existem vários vídeos no YouTube explorando esse poema, alguns deles em que o poema foi musicado, alguns com um coro masculino sensacional, muito lindo, há até um com o próprio Frost dizendo o poema, vale a pena ver.

E eu me atrevi, besta que sou, a escrever uma versão em português, espero que não me atirem repolhos nem tomates. De qualquer forma estou a salvo dessas "reações vegetais", pela distância virtual. Então, com vocês, a minha versão:

Paro em frente à mata por um momento breve,
É tarde e a neve vai caindo, branca e leve.
Sei que o dono daqui não vai saber,
Que aqui estou, vendo a mata se cobrir de neve.
Meu cavalinho deve estar estranhando
Parar aqui, enquanto está nevando,
Entre a escura mata e o lago congelado.
Por que parar aqui e não seguir andando?
Ele sacode a sineta, põe a cabeça de lado
Como que perguntando se algo está errado.
Além desse som nada mais se ouve,
A não ser o dos flocos caindo no chão nevado.
A mata é linda, mas é preciso ir,
Tenho muitas promessas a cumprir
E um longo caminho até dormir.
E um longo caminho até dormir.

Esse poema é ensinado aos alunos da escola elementar, nos Estados Unidos. Ele permite diversas interpretações, sendo que aquele final é geralmente entendido como uma metáfora da morte. No entanto, segundo um dos comentários do post do Brian Crane, a filha do poeta explicou, em uma palestra, que o pai dela, que vivia à época na zona rural de New Hampshire, na gelada Nova Inglaterra tinha, de fato, tido essa experiência e portanto, que a parada em frente ao tal do bosque nevado poderia ser entendida literalmente.
Esta foto foi tirada no Largo de Santo Antoninho, em Lisboa. Ela é um bom retrato de Lisboa no inverno. Cidade especial, única. Em que outra cidade do mundo poderíamos ver um cantinho assim, ao mesmo tempo simples, sem pretensões, mas também sofisticado, pelo mistério da sua beleza? Vamos reparar em tudo: as árvores sem folhas, porque estamos no inverno, o típico candeeiro de ferro onde uma pomba (contratada pela Câmara Municipal para sair na foto em troca de um pãozinho) acabou de pousar, a bica que mata a sede, de graça, em dias de verão, o desenho clean que o calceteiro escolheu: pedrinha branca, pedrinha escura, os prédios em L pintados de creme e amarelo, um com as suas sacadas, o outro com as suas mansardas, as portas e janelas verdes, os gradis de ferro ... tudo isso é muito Lisboa. Esse cantinho da cidade foi rotulado por um poeta e convida os artistas a ali montar seu cavalete e pintar o Largo de Santo Antoninho. Largo de Santo Antoninho... a doçura do nome reflete o sabor amigo da cidade.
Câmara Municipal de Lisboa
8 h
Bom Dia, Lisboa
Largo de Santo Antoninho
Fotografia de Ana Luísa Alvim
#lisboa

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

(...) And this he said to me, "The greatest thing you´ll ever learn, ... is just to love ... and be loved in return."
palavras escritas por Eden Ahbez, parte de uma canção chamada Native Boy, cantada por Nat King Cole ou então, em dueto, por Lady Gaga & Tony Bennett. Dá para ouvir no YouTube.
E, vem cá, entre as grandes verdades que estão escancaradas à nossa frente e por toda a vida, essa é uma forte candidata, né não? Há outras, mas essa é uma das greatest things you´ll ever learn...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Se segura, galera, que vem Torga. Escolhi um breve e pra cima, o que não é fácil de encontrar no Torga já velho e baleado. Ele escreveu isso em 16 de Agosto de 1977. Chama-se
Fiança
Entra-me o sol a rir pela janela.
Traz notícias bem vindas lá de fora.
Diz que não há sombra agora
No mundo que me espera e que receio.
Que posso, confiado,
Num pégaso sem freio,
Ir cumprir mais um dia do meu fado.
- Miguel Torga, in Diário XIII
Amanhã de manhã seguirei o conselho do poeta. Certamente terei também a visita do sol, figurinha fácil aqui na Copazona e ele me trará boas notícias do mundo lá de fora. Pegarei meu pégaso sem freio, darei a ele um torrão de açúcar e irei, alado, curtir feliz mais um dia do meu fado.
e segura, galera, que vem Torga. Escolhi um breve e pra cima, o que não é fácil de encontrar no Torga já velho e baleado. Ele escreveu isso em 16 de Agosto de 1977. Chama-se
Fiança
Entra-me o sol a rir pela janela.
Traz notícias bem vindas lá de fora.
Diz que não há sombra agora
No mundo que me espera e que receio.
Que posso, confiado,
Num pégaso sem freio,
Ir cumprir mais um dia do meu fado.
- Miguel Torga, in Diário XIII
Amanhã de manhã seguirei o conselho do poeta. Certamente terei também a visita do sol, figurinha fácil aqui na Copazona e ele me trará boas notícias do mundo lá de fora. Pegarei meu pégaso sem freio, darei a ele um torrão de açúcar e irei, alado, curtir feliz mais um dia do meu fado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

21/1/2017
Eu gosto de cozinhar minha família e meu gato.
Que falta faz uma vírgula.

Ainda sobre a importância da pontuação. Conta-se a história de um professor inglês que escreveu na lousa (dúvida "retroz": ainda se escreve na lousa?) 
"A woman without her man is nothing." Ele pediu aos alunos que fizessem a pontuação necessária. Todos os homens na sala de aula mexeram na frase, ficando assim: "A woman, without her man, is nothing." 
Todas as mulheres da sala escreveram: "A woman: without her, man is nothing."
Tentei colocar essa historinha toda em português, mas não dá certo. O duplo sentido do "her" é essencial para a gracinha. Na frase dos homens esse "her" é adjetivo possessivo (her man = o seu (lá dela) homem), enquanto na frase pontuada pelas mulheres, o "her" é pronome pessoal oblíquo  (= ela). 

Punctuation is everything.
A vida e as metáforas. O que é a vida? Quando ela pode ser um campo estéril, coberto de neve? Ou então quando ela pode ser um pássaro de asa quebrada, incapaz de voar? Vamos perguntar isso ao Langston Hughes.
Hoje é dia de Langston Hughes e sua poesia.
Primeiro, um poeminha breve sobre a importância de nossos sonhos e de não desistirmos deles. É bem conhecido, mas é sempre hora de voltar a dar este recado:
Hold fast to dreams
For when dreams go,
Life is a barren field
Covered with snow.
Hold fast to dreams
For when dreams die,
Life is a broken-winged bird
That cannot fly.
Vai de memória. Qualquer diferença do original, a culpa é minha e da preguiça de encontrar o livro onde está esse poeminha. O autor, já disse, é Langston Hughes. Voltarei a falar nele em uma notinha. Quanto à language, lembrar que "hold fast to dreams" corresponde a "segure bem seus sonhos, não deixe que eles fujam". O sentido mais comum do adjetivo "fast" é "rápido, veloz" e do advérbio "fast" (que tem a mesma forma, não varia, não existe o advérbio "fastly") é "rapidamente, velozmente". Mas esse não é o único significado de "fast". Fast também pode ser "firme" ou "firmemente", que é o caso nesse "hold fast to dreams": segure com fimeza os seus sonhos. Além disso, aquele "for" no início das segundas linhas significa "Porque, pois", é uma palavrinha usada para explicar. Um "barren field" é um campo estéril, que não produz vida. A broken-winged bird é um pássaro de asa quebrada.
Pronto, tudo explicadinho. Agora, é ler de novo, EM VOZ ALTA, e dizer obrigado ao Langston Hughes.
24/1/2017

Escuta aqui, moleque! Pode ir, mas quero você de volta em casa antes das 10, ouviu? Pega o cipó das 9, no mais tardar! 

























segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Hoje não há poesia nem pegadinhas, mas vocês estão convidados a ler uma frase e provar que pegaram, direitinho, a inferência que podemos fazer a partir dela.
Oscar Wilde (1854-1900), irlandês, autor de, entre outros romances, O Retrato de Dorian Gray, poeta, dramaturgo, famoso pelo wit, pela fina ironia, pelo sarcasmo e também pelo estilo de vida liberal e espalhafatoso, chocante para a época em que viveu (reinava então a rígida Victoria), certa vez disse isto,
"I don´t want to go to heaven. None of my friends are there."
Das alternativas abaixo, escolha a única que encaixa com o que podemos inferir da citação acima.
a. Ele não acreditava nem em céu nem em inferno.
b. Os amigos de Oscar Wilde eram todos muito bonzinhos, uns verdadeiros santos.
c. Oscar Wilde tinha muitos amigos, alguns muito bem comportados, outros menos.
d. Oscar Wilde preferia a companhia dos amigos aos prazeres do paraíso.
e. Nenhum dos amigos de Oscar Wilde queria ir para o céu quando morresse.
Acertou quem marcou a letra d.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Helinha, aqui escreve o Amadeu, o menino do Rio. Sem querer me meter a besta nem a chato sem galochas (porque elas já não se usam) e porque, a bem da verdade e sem hipocrisia, esse texto é de autor desconhecido e é sempre mais fácil comprar briga com autor que não se conhece do que com autor que, vamos imaginar, faz academia e conhece artes marciais, eu discordo 100% dessa tese, que exalta o idoso e massacra o velho. Nascido em 1939, no início da Segunda Grande Guerra e ainda estando por aqui, eu sei e assumo perfeitamente que estou velho. Caramba, cacilda, caracoles, tenho 77 anos, tô velho. Isso quer dizer que vivi 77 anos até agora e que estou disposto a viver mais. Fico solidário com um autor americano, não me lembro qual, que disse ser sua intenção viver para sempre. Como esse cara era americano, disse "I intend to live forever. So far so good." Por quanto tempo poderei dizer, "Pretendo viver para sempre. Até agora, tudo bem", eu não sei, ninguém sabe. Mas assumo a carteirinha da velhice numa boa. Prefiro estar e ser velho a estar e ser o tal do idoso. O sufixo -oso não me é simpático: idoso, ansioso, invejoso, teimoso, andrajoso, ardiloso, meticuloso, pavoroso, horroroso, bexigoso, rançoso, tuberculoso... Não concordo com as oposições propostas naquele texto, com carga positiva para o idoso e negativa para o velho. Acho que, como em todas áreas da condição humana, há idosos chatérrimos e há velhos do baralho. "Você é idoso quando sonha... você é velho quando apenas dorme." Não compro essa dicotomia. Como toda a gente, durmo e sonho, às vezes sonhos onde me vejo jovem, outras vezes em que me vejo como estou hoje. "Para o idoso a vida se renova a cada dia que começa... para o velho a vida se acaba a cada noite que termina". No way, José (pronunciado em inglês, rimando com lei). De jeito nenhum. Seja o rótulo qual for, idoso ou velho, cada novo dia é uma ordem para você ficar esperto e o viver com toda a intensidade possível. "Idoso é quem tem o privilégio de viver uma longa vida... velho é quem perdeu a jovialidade." De novo, discordo. Quem perdeu a jovialidade não é velho, é panaca. Conheço muitos jovens que nunca foram apresentados à jovialidade ou então deixaram de a ter e nem ligaram. Quanto ao privilégio de viver uma longa vida, ele não é dado especialmente ao idoso, é dado a todos nós, basta receber um bom DNA, alimentar-se direitinho, beber muita água e muito vinho (tinto, português, do Douro ou do Alentejo), ter um trabalho que te interesse, te sustente e te divirta e ficar esperto para evitar as balas perdidas. O que quero dizer com esta lenga-lenga (afinal continua havendo trema em lenga-lenga) é que assumo com orgulho, talvez até empáfia, a minha carteirinha de velho. Uma palavra que pensada e dita com carinho, pode ser tão doce como um cafuné. Imagina que você ouve seu filho dizer a outra pessoa (sem que você ouça ou saiba), "Meu velho é um cara legal." Ou então ouve teus filhos se referirem aos pais (a mãe deles e você) dizendo isto, "Vamos chamar os velhos para jantar." Legal, né? É carinhoso. Agora imagina trocar a palavra velho nessas frases, pelo tal idoso. Seria isto: "Meu idoso é um cara legal." "Vamos chamar os idosos para jantar." Ridículo, né? Então, vivam os velhos! E as velhas, of course! E agora preciso terminar este texto, preciso ir ao ensaio do bloco Trema na Linguiça, saio na ala dos velhos. Ziriguidum!
E o dia se foi, há muito é noite escura, sem luar. Não faz mal. Pedimos um poema à Sophia e ela nos dá a
Lua
Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
- Sophia de Mello Breyner Andresen
One single day without saying a poem aloud is a day wasted. (royalties para o Instituto Chaplin)
Inaugurando a série "Who Said What?", leia, pense e responda:
"Put your hand on a hot stove for a minute, and it seems like an hour. Sit with a pretty girl for an hour, and it seems like a minute. That´s relativity."
Quem foi que disse isso?
a. Groucho Mark. b. Albert Einstein. c. Mark Twain.
Eu num ia dar a resposta, ia deixar que vocês buscassem a pista, porque ela existe. Uma das palavras dessa citação está muito ligada ao carinha que disse isso. Quem propôs a teoria da relatividade?
E a série "Who Said What?" continua, agora no formato de combinação de colunas e será moleza para os cinéfilos. Para quem gosta de cinema vai ser moleza saber quem disse o quê, em certo filme. Alguns desses filmes são bem antiguinhos, mas são grandes filmes, antológicos. Se não viu, tá na hora de ver. Pega o balde de pipocas e vamulá. Ready? Go!
1. "There are simply too many notes."
2. "A boy´s best friend is his mother."
3. "I think people should mate for life, like pigeons or Catholics."
4. "I´m gonna make him an offer he can´t refuse."
5. "Houston, we have a problem."
6. "I am your father."
7. "Hoke, you´re my best friend."
8. "Just keep swimming."
9. "I do not know how to kiss, or I would kiss you. Where do the noses go?
10. "Mamma used to say, "Life is like a box of chocolates. You never know what you´re gonna get."
a. Dory (na voz de Ellen deGeneres, no filme Procurando Nemo)
b. Commander Jim Lovell (representado por Tom Hanks no filme "Apollo 13")
c. Darth Vader ( na voz de James Earl James, em The Empire Strikes Back, não sei o título em português)
d. Miss Daisy (representada por Jessica Trendy, em Conduzindo Miss Daisy)
e. Forrest Gump (representado por Tom Hanks, em Forrest Gump)
f. Dom Corleone (representado por Marlon Brando, em O Poderoso Chefão)
g. Isaac Davis (representado por Woody Allen, em Manhattan)
h. Norman Bates (representado por Anthony Perkins, em Psicose)
i. Imperador Joseph II (representado por Jeffrey Jones, em Amadeus)
j. Maria (representada por Ingrid Bergman, em Por Quem os Sinos Dobram)
Vamos à key: 1. i. 2. h. 3. g. 4. f. 5. b. 6. c. 7. d. 8. a. 9. j. 10. e.
Linda foto! Mosteiro de Alcobaça. Lá ao fundo, aqueles dois "objetos" mais escuros, são os túmulos de Inês e Pedro. Estão colocados um de frente para o outro. No Dia do Juízo Final os dois pombinhos vão poder se erguer, se abraçar e viver felizes para sempre...
Eita, Alcobaça! Passam dois rios por essa cidadezinha, o Alcoa e o Baça. Daí ... Alcobaça. O dia que forem a Alcobaça, têm de visitar o Mosteiro, é claro, mas não deixem que procurar/comprar/comer o quê? Os pêssegos de Alcobaça, os melhores pêssegos do planeta Terra! Não tem pra Pelotas, não tem pra Chile, não tem pra Califórnia, os melhores pêssegos do mundo são de Valbom, Alcobaça!

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Dorothy Parker poderia ter sido garota-propaganda de lentes de contato. Ela escreveu isto:
Men seldom make passes
At girls who wear glasses.
E também escreveu isto:
Travel, trouble, music, art,
A kiss, a frock, a rhyme -
I never said they feed my heart,
But still they pass my time.
Dorothy Parker era o nome dessa genial baixinha.
Entrando aqui de novo, só para avisar que a expressão "make passes" não pode ser entendida à letra. Não se trata de "fazer passes", nem no futebol, nem no basquete, nem no centro espírita, e também não emitir bilhetes para passar de um lugar para o outro. When a man makes a pass at a woman ele simplesmente tenta convidá-la para o jogo do amor, aplica na moça a popular cantada. E aquele "seldom" é sinônimo de "rarely" : raramente. Agora fica mais fácil entender o que a Dorothy (que quando jovem usava óculos) disse naquelas duas linhas e porque ela, já no seu Indian summer, passou a usar lentes de contato.
O que vai ser, hoje? Pegadinhas? De quê? De pronúncia, de ortografia? Não. Hoje vamos abordar as pegadinhas de regência. De preposição. Qual é a preposição, em português, que vai com o verbo "depender"? De. Depender de, eu dependo de você para isto ou aquilo. Em inglês a preposição que corresponde a "de", com ideia de posse, é a manjadíssima "of". Então, para dizer "Eu dependo de você", quando nos comunicamos in English, vamos de "I depend of you." Certo? Errado. A preposição, em inglês, que acompanha o depend é on e não of. I depend on you, para isto ou para aquilo. Pegadinha. Então hoje vamos propor um exercício com os top ten (na minha opinião) verbos mais perigosos para nós por serem regidos por preposições diferentes das que usamos em português. Atenção! Não banque o espertinho e escolha sempre a alternativa "que não bate" com a nossa, porque eu sou perverso e incluí algumas que não são perigosas... Ready? Vamulá:
1. Para dizer "Eu conto com você." escolhemos
a. I count with you. b. I count on you.
2. Para dizer "Sonhei com você." (Epa!) usamos
a. I dreamed with you. b. I dreamed about you.
3. Para dizer "Eu me preocupo com você." escolhemos
a. I worry about you. b. I worry with you.
4. Para dizer "Eu concordo com você." vamos de
a. I agree with you. b. I agree of you.
5. Para dizer "Eu discordo de você." vamos de
a. I disagree of you. b. I disagree with you.
6. Para dizer "Eu sorrio para você." escolhemos
a. I smile to you. b. I smile at you
7. Para dizer "Eu grito com você." (no sentido de "brigar com"):
a. I shout with you. b. I shout at you.
8. Para dizer "Eu grito para você." (para você me ouvir, ao longe):
a. I shout to you. b. I shout with you.
9. Para dizer "Eu reclamo de você." vamos de
a. I complain of you. b. I complain about you.
10. Para dizer "Eu olho para você." usamos
a. I look at you. b. I look to you.
A última é moleza, a piece of cake, até criança mata essa. Mas as pegadinhas são perigosas. E agora você já sabe e não erra mais! Isso foi chupinhado do meu dicionarinho mas se você não possui essa pequena maravilha (falha grave, 10 pontos na carteira) , aqui vai a key:
1. b 2. b 3. a 4. a 5. b 6. b 7. b 8. a 9. b 10. a
E vou incluir esta, de bônus:
11. Para dizer "Eu rio de você." (rio do que você diz):
a. I laugh of you. b. I laugh at you.
Resposta: b.
Eu sei que estou torrando o saco de vocês com o António Gedeão. Mas não tem jeito. Fiquem lá com mais esta
Gota de Água
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
- António Gedeão (Movimento Perpétuo)
E porque hoje é sábado ... vamos trabalhar. Mais um exercício com pegadinhas. Desta vez primeiro propomos o teste e só depois dizemos que tipo de pegadinha ele aborda. Focalizamos 10 verbos, cada um deles apresentado com uma frase que serve como exemplo de uso. Em cada uma das frases, escolha a alternativa correta.
1. to doubt (duvidar de)
a. How can you doubt of me? b. How can you doubt me?
2. to believe (acreditar em, achar que é verdade)
a. I believe you.  b. I believe in you.
3. to touch (tocar em)
a. "Don´t touch in anything," the detective said.
b. "Don´t touch anything," the detective said.
4. to trust (confiar em, ter confiança em)
a. We trust you. b. We trust in you.
5. to pass (passar em)
a. She passed in the test. b. She passed the test.
6. to marry (casar(-se) com)
a. Why did she marry with him? b. Why did she marry him?
7. to enter (entrar em)
a. We entered into the house. b. We entered the house.
8. to meet (encontrar-se com)
a. I am going to meet with her at the station.
b. I am going to meet her at the station.
9. to remember (lembrar-se de)
a. Do you remember me? b. Do you remember of me?
10. to enjoy (gostar de)
a. Do you enjoy of cooking? b. Do you enjoy cooking?
Olha a key: 1. b 2. a 3. b 4. a 5. b 6. b 7. b 8. b 9. a 10. b
Conclusão: As alternativas corretas são aquelas em que esses verbos (em inglês) NÃO são seguidos de preposição, ao contrário do que acontece com os verbos de sentido correspondente, em português. Há muitos outros desse tipo. Dizemos "I like you." = Eu gosto de você. Dizemos "I need you." = Eu preciso de você. E muitos outros, manjados. Mas os que incluímos no exercício são pegadinhas. Evitáveis, se você souber que elas existem. 
No caso do believe : acreditar em, é bom lembrar que esse verbo não é seguido de preposição quando a ideia é de "achar que é verdade, que não é mentira" (I believe you, I´m sure you´re not lying), mas o mesmo believe pode ser usado com a preposição in, quando a ideia for de "ter fé ou confiança em" (I believe in God, I believe in myself) ou então com o sentido de "achar que existe(m)" (Do you believe in ghosts?). E também usamos in com believe no sentido de "acreditar, achar bom, importante" como, por exemplo, em I believe in planning ahead = Acredito, acho o planejamento importante. 
No caso do trust: confiar em, ter confiança em, quando esse verbo for usado no sentido religioso, "crer, acreditar em" usa-se com a preposição in (In God we trust./We trust in God.)
Sutilezas, nuances, detalhes... Tudo isso foi chupinhado do meu dicionário, tá tudo explicadinho lá...
Procurando alguma coisinha leve, pra cima, para desviar a atenção da turbulência, da violência, da lambança geral. Também para variar das pegadinhas e dos poeminhas. Acabei achando um textículo que tem como base uma joke envolvendo Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson. Há alguns anos, talvez muitos, peguei essa joke como base e costurei um texto legal, ótimo para explorar e explicar, entre outros aspectos gramaticais, a formação do Simple Past dos verbos regulares e de alguns irregulares, que foi incluído em um dos volumes do Password: Read and Learn, uma coleção para o ensino fundamental em parceria com a querida amiga Profa. Kátia Tavares. Coloco aqui just for fun, sem pegadinhas, nem testes, só a historinha, só pra ler e curtir.
One summer evening Sherlock Holmes and his friend Dr. Watson went camping. They put up their tent, ate one or two sandwiches, drank a bottle of wine and after some conversation each of them got into his sleeping bag and tried to get some sleep. 
Some hours later, Holmes woke up and decided to tell Watson something important. He touched his friend´s arm and said, "My dear Watson, look up and tell me what you can see."
"I can se thousands and thousands of stars," said Watson.
Holmes looked at his friend and asked him a question, "And what does that mean?"
The doctor thought for a moment and then answered, "First: astronomically, it means that there are thousands and thousands of galaxies and probably millions of planets. 
Second: astrologically, I can see that Saturn is in Leo and so I´m sure that we´re going to have a lucky day. 
Third: in terms of time and according to the position of the Pole Star I can see that it´s about 3:15 a.m. 
Fourth: in religious terms, I can see that there is a God, the Almighty God, and right now I feel small and insignificant. 
Fifth: in meteorological terms, I can see that we´re going to have a lovely sunny day. Am I correct?"
For a moment Holmes remained in silence, but then he smiled and said, "Watson, you fool! All it means is that someone stole our tent!"
Moral: Life is quite simple. We are the ones who make it complicated.
Outra conclusão que se tira é que o Dr. Watson era um tremendo de um chato.

E o dia se foi, há muito é noite escura, sem luar. Não faz mal. Pedimos um poema à Sophia e ela nos dá a
Lua
Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
- Sophia de Mello Breyner Andresen
One single day without saying a poem aloud is a day wasted. (royalties para o Instituto Chaplin)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hoje é dia de pegadinhas de pronúncia. Em cada uma das frases abaixo, são focalizadas palavras da língua inglesa que são armadilhas de pronúncia. Escolha a alternativa correta, não xingue o autor desta notinha porque, afinal, I´m just the messenger, não fui eu que inventei as pegadinhas... mas já que elas existem, não custa nada conhecê-las e aí evitar o erro. Tudo isso é chupinhado do meu pequeno dicionário mas, como alguns não o têm (falha grave, 10 pontos na carteira...), aqui vai um exercício para você não errar mais.
1. Tongue (língua) rima com
a. young b. long
2. High rima com fly. E height (altura) rima com
a. eight b. flight
3. Drawer (gaveta) rima com door. Drawer tem
a. uma sílaba b. duas sílabas
4. Front rima com
a. don´t b. hunt
5. Heir (herdeiro) soa como
a. air b. hair
6. Spanish (espanhol) rima com
a. Danish (dinamarquês) b. vanish (sumir, desaparecer)
7. Em sword (espada) o w é mudo. Sword rima com
a. word b. lord
8. Bury (enterrar) rima com
a. hurry b. very
9. Sew (costurar) rima com
a. low b. new
10. Em prayer (reza, oração) pronuncia-se uma sílaba só. Rima com
a. player b. chair
E vamos à key. Se errou algumas, não fique triste, são pegadinhas. E agora você já sabe ... e não erra mais!
1. a 2. b. 3. a 4. b 5. a 6. b 7. b 8. b 9. a 10. b
Não acredita? Check it out in the dictionary! Mine, of course!